sexta-feira, 20 de maio de 2011

NEM SEQUER SOU POEIRA

Não quero ser quem sou. A avara sorte

Quis-me oferecer o século dezassete,

O pó e a rotina de Castela,

As coisas repetidas, a manhã

Que, prometendo o hoje, dá a véspera,

A palestra do padre ou do barbeiro,

A solidão que o tempo vai deixando

E uma vaga sobrinha analfabeta.

Já sou entrado em anos. Uma página

Casual revelou-me vozes novas,

Amadis e Urganda, a perseguir-me.

Vendi as terras e comprei os livros

Que narram por inteiro essas empresas:

O Graal, que recolheu o sangue humano

Que o Filho derramou pra nos salvar,

Maomé e o seu ídolo de ouro,

Os ferros, as ameias, as bandeiras

E as operações e truques de magia.

Cavaleiros cristãos lá percorriam

Os reinos que há na terra, na vingança

Da ultrajada honra ou querendo impor

A justiça no fio de cada espada.

Queira Deus que um enviado restitua

Ao nosso tempo esse exercício nobre.

Os meus sonhos avistam-no. Senti-o

Na minha carne triste e solitária.

Seu nome ainda não sei. Mas eu, Quijano,

Serei o paladino. Serei sonho.

Nesta casa já velha há uma adarga

Antiga e uma folha de Toledo

E uma lança e os livros verdadeiros

Que ao meu braço prometem a vitória.

Ao meu braço? O meu rosto (que não vi)

Não projecta uma cara em nenhum espelho.

Nem sequer sou poeira. Sou um sonho



Jorge Luis Borges, in "História da Noite"

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

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